Não fazia muito calor, nem muito frio. A chuva não dava sinal. Dia ideal para longas caminhadas sem preocupações com o clima. Talvez por isso naquele domingo de manhã uma senhora com seus 57 anos, três netos pra criar, aluguel pra pagar, remédio pra comprar e sem emprego pra se sustentar sai de casa a procura de ajuda. Encontra no seu caminho uma igreja e sai de lá agradecida com uma bolsa de mantimentos e orientações sobre como resolver outros problemas que afligem sua família.

Quem cruza com ela é um senhor de 63 anos, com saúde tão precária, que sua filha com deficiência física é quem precisa ajudá-lo na maior parte do tempo. Entra na fila para falar comigo. Ele me chama de pastor. Digo que sou assistente social. Franze a testa se perguntando o que faz um assistente social numa igreja. Conversamos longamente sobre sua família e pensamos juntos em alternativas para suas principais preocupações.

– O que você falou comigo aqui me alimentou uns 3 meses.

Felizes, nos despedimos.

O próximo a entrar é um jovem de 24 anos. Está dormindo há dois meses em um abrigo da prefeitura. Não conseguiu trabalho, apesar de ter profissão. É mecânico de bicicletas. A rua foi seu destino depois de perder o controle de sua vida para as drogas. Agora quer voltar pra casa de sua mãe na Região dos Lagos. Espera passar o Dia das Mães com ela, daqui a uma semana. Pede o dinheiro da passagem.

Peço o número de telefone de sua mãe. Ele diz que perdeu. Pergunto pelo endereço. Mandaria uma correspondência pedindo que retornassem o contato. Também não sabe o endereço. Desculpo-me e digo que sem esse contato não posso ajudá-lo.

A regra é clara. Passagem só é comprada quando se consegue falar com a família, que autoriza o retorno. Não faz sentido tirar um sem teto de uma cidade e o deixar sem teto em outra. Até já houve um tempo em que a prefeitura queria se livrar de todos que moravam na rua. Era só ter um pouco de sotaque que aparecia dinheiro para passagem – só de ida – para quem pedisse. Teve um que pediu para retornar ao Espírito Santo. Dois dias depois já estava no ônibus para reencontrar sua família. Na semana seguinte estava de volta ao abrigo e se divertia com os colegas contando que viajou só para dar uma surra na ex-esposa. Voltar também foi fácil. Afinal a prefeitura de lá também não queria moradores de rua por perto.

Ele chora. Insiste que precisa ver a mãe no Dia das Mães. Que assim, por carta, não daria tempo.
– Rapaz, melhor parar de chorar. Você não quer que eu sinta pena de você, quer? Não gosto que ninguém me ache um coitado. Você também não precisa disso. Tenho todo o tempo pra você aqui. Vamos encontrar algum contato de sua família. Dá uma pista. Um comércio perto, telefone de algum parente ou vizinho, o Facebook de um amigo. Se conseguirmos o contato com sua família poderá viajar logo. A passagem é barata, o preço de um almoço.

Mas ele não colabora. Sugiro que tente um bico durante a semana. Um dia de trabalho dá para pagar a passagem. Dou algumas dicas sobre como conseguir o dinheiro.

Sai da sala contrariado. Continua no corredor da igreja pedindo dinheiro pra viagem. Um senhor o leva de volta, interrompendo o atendimento seguinte. Explico que já conversei com ele. Explico a regra. Explico a razão da regra. Explico que ofereci alternativas. Explico que provavelmente ele quer o dinheiro da passagem para outra coisa.

O senhor diz que se o problema é dinheiro, ele pode comprar a passagem. Mas esse não é o problema, até porque não é disso que o jovem precisa. Não precisa encontrar a mãe no Dia das Mães. O que precisa é enfrentar seus problemas. E o máximo que ainda posso dizer, para respeitar o sigilo profissional, é que nos colocamos a disposição para ajudá-lo. Mas essa decisão precisa ser dele. O senhor parece não querer entender. Desconfio que não está preocupado com o almoço do dia das mães do jovem. Está querendo se livrar do pedinte. E acaba por confessar. “O rapaz está incomodando. É melhor dar logo o dinheiro para que vá embora.”

Isso não vai resolver nenhum problema. O jovem estava nas ruas, em outra cidade, usando drogas. Se quisesse voltar pra casa não seria difícil encontrar sua família. Mas ele estava mais preocupado em conseguir o dinheiro na igreja do que em falar com sua mãe. Precisava sair das ruas e tratar sua drogadição. Estar perto dos parentes seria um bom começo, mas não é possível estar perto sem se comunicar.

Em situações desse tipo, o que se pode fazer é costurar uma rede de apoio, com acesso à saúde, oportunidade de emprego, qualificação. Tudo, enfim, que possa oferecer perspectiva de uma vida melhor, em que a droga não precise ter espaço. Qualquer solução que não leve isso em consideração tende a gerar mais isolamento. E o isolamento trará novas necessidades. E a necessidade dessa gente já é bastante grande, faça chuva ou faça sol.

Marcelo Jaccoud

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