Estamos em 2001, num sábado à tarde. Na cantina da igreja casais preparam um almoço. Os vapores escapam da panela e preenchem o ambiente com o cheiro da carne assada. Até criança em greve de fome fica hipnotizada sonhando com o que encontrará no prato.

No pátio em frente outra atividade ocorre simultaneamente. Um grupo de jovens se reúnem com pessoas que moram nas ruas. Após um banho, roupas limpas e um pouco de pão e café proponho uma dinâmica onde duplas precisam encontrar um meio para atravessar um rio saltando pedras, folhas e paus. O desafio só pode ser vencido se as pessoas confiam umas nas outras e se equilibram abraçadas entre os obstáculos. O desconforto é geral. A necessidade de se tocarem para cumprir a atividade os deixa constrangidos. Tanto tempo sem abraçar ou ser abraçado vai endurecendo corpos e corações.

Mas ao mesmo tempo que tento encorajá-los a chegarem do outro lado do rio, o que mais me preocupa é o cheiro que chega da cozinha. Logo um sem teto caminha em minha direção e pergunta o que os casais estão fazendo. Explico que a comida será servida no dia seguinte e que o almoço ajudará a levantar fundos para outra programação da igreja. Se lhe der um prato de comida – para ser justo – teria que conseguir comida para todas as outras dezesseis pessoas que participam da dinâmica. Todo o lucro pretendido com o almoço iria embora. Tento assim meio sem jeito convencê-lo que, infelizmente, não poderia servi-lhe aquela refeição.

Sigo um tanto quanto tenso, pensando no que mais diria para sair daquela situação. Ele continua me fitando com um olhar meio contrariado e diz:

– Não vim pedir comida. Sou cozinheiro e só queria uma oportunidade de ajudar a fazer um almoço.

Marcelo Jaccoud da Costa

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